Entrevista com a candidata Maria da Consolação (PSOL)

Grupo

Camila Bastos Ramos
Carmelita Maria Soares de Melo
Felipe Rennó Gomes
Fernanda Melo Fiorenzano Reis
Judy Nemésio Lima Barros
Luisa Faria Pereira
Luiza Diniz Laraia

A candidata do PSOL à sucessão municipal em Belo Horizonte conversou com os estudantes de Jornalismo da PUC Minas sobre as propostas de governo apresentadas em sua candidatura e chamou a atenção dos eleitores ao afirmar que “política não pode ser negócio”. Maria da Consolação enfatizou a urgência de se implementar uma reforma política e falou sobre a importância de se radicalizar a democracia em favor da participação coletiva dos cidadãos em todas as decisões políticas da cidade. Ela tem 49 anos, é mestre em Pedagogia pela UFMG e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo. Trabalha na Universidade do Estado de Minas Gerais e é professora da Rede Municipal de Belo Horizonte há 26 anos.

1) Candidata, qual é o objetivo do PSOL nas eleições municipais de 2012?

R.: A eleição é um momento muito importante para discutirmos o futuro da cidade, do Estado e do país. Portanto, nós, que somos um partido de esquerda, temos a obrigação de, no processo eleitoral, abrirmos um debate e apresentarmos propostas concretas de transformação da cidade, do Estado e do país. Isso nós estamos fazendo e é possível construir uma nova Belo Horizonte assim. Uma construção além do que eles querem nos impor. Nós temos condições de fazer isso. O nosso programa de governo apresenta propostas simples e concretas, porque se sustenta na discussão do direito que temos na cidade. Portanto, o dinheiro público tem que ser investido para melhorar a vida do conjunto da população e na radicalização da democracia. Temos que garantir a participação das pessoas na definição dos destinos da cidade. Não podemos aceitar mais essa velha história de que “vou votar em quem está ganhando, vou votar no menos pior”. Temos opções concretas de transformação da nossa cidade e estamos fazendo esse papel, buscando e trabalhando intensamente para conquistar mais pessoas para essa proposta. Tenho a convicção de que não é impossível mudar e nós temos propostas concretas para transformar Belo Horizonte em uma cidade melhor para todo mundo.

2) Quais as estratégias têm sido usadas pelo PSOL para publicizar as suas propostas de campanha?

R.: Nós temos participado de todos os debates em que somos convidados. Realizamos panfletagens, utilizamos o tempo do horário eleitoral gratuito, temos feito rodas de conversa com as pessoas. Utilizamos, também, as redes sociais. Buscamos construir esse espaço coletivo de debate, porque para nós é muito importante. A política feita olho no olho, discutindo, dialogando, porque se defendemos a radicalização da democracia, nós temos que demonstrar essa capacidade e essa convicção. Nós realmente queremos discutir com as pessoas todos os destinos da cidade. E temos a humildade em dizer que apresentamos um programa que é interessante, que é o mais completo, mas não está totalmente perfeito. Por isso, os debates são importantes para as pessoas discutirem e apresentarem novas propostas, como forma de garantir a participação dessas pessoas na construção de uma cidade melhor.

“É possível construir uma nova Belo Horizonte. Uma construção além do que eles querem nos impor. Nós temos condições de fazer isso”.

3) Caso seja eleita, como você acredita que será a sua relação com a Câmara de Vereadores, uma vez que, provavelmente, enfrentará uma grande resistência lá dentro?

R.: Essa é uma questão da velha política que nós temos que romper. É um mito. Hoje, quando se fala em governabilidade, o que significa? Chantagem. É o que está lá no julgamento do mensalão. Significa compra de votos. Nós temos que romper com isso. Vereador tem que votar boas leis para a população e fiscalizar o Executivo. Quando falamos que queremos radicalizar a democracia, significa que vamos discutir as leis, conversar com as pessoas, enviar propostas para a Câmara e cobrar um posicionamento dos vereadores. Se eles vierem com a política das chantagens, nós iremos convidar as pessoas, convocar a população para exigir que eles cumpram a obrigação deles. Não podemos ficar nessa situação de aceitar que a política é negócio. Se nós queremos construir outra relação, iremos construir outra relação com a Câmara Municipal. E se tivermos divergência em alguma proposta de lei, de grupos dentro da cidade, de grandes setores dentro da cidade, vamos fazer um plebiscito. Nós temos recursos na cidade. Hoje, é investido muito dinheiro em publicidade. O que precisamos fazer é investir dinheiro na publicidade, não em autopromoção, e sim na publicidade educativa, de debates sobre os problemas da cidade, para termos mecanismos de plebiscitos, de referendos, de participação efetiva da população na definição das questões da cidade. Então, vamos fazer esse enfrentamento com tranqüilidade. Vamos chamar os eleitores e eles irão pressionar.

4) Como você analisa o atual prefeito e candidato à reeleição Márcio Lacerda?

R.: O atual prefeito é um candidato à reeleição, que tem privatizado a nossa cidade. O compromisso dele é com os grandes grupos econômicos de Belo Horizonte. A concepção que ele tem é a de tratar a cidade como se fosse uma empresa, a empresa pessoal dele. Portanto, ele privatiza a cidade, destrói as relações sociais e tem uma relação perversa com a população mais pobre, com a população de rua, com as pessoas que fazem ocupações urbanas. Márcio Lacerda tem uma visão militarizada em relação às pessoas que lutam dentro da cidade.

5) Qual é a sua percepção sobre o movimento “Fora Lacerda”?

R.: Eu considero o “Fora Lacerda” um movimento muito importante, porque foi o primeiro movimento organizado para contrapor a Administração Pública. Existem vários movimentos dentro da cidade, mas o movimento “Fora Lacerda” faz um chamado ao conjunto dos movimentos e surge, também, em função disso. Como estavam acontecendo várias manifestações na cidade e as mesmas pessoas iam apoiar as outras, então elas se uniram contra essa prefeitura que privatiza a cidade. Nós temos que fazer um movimento contra essa prefeitura. Portanto, o “Fora Lacerda” tem a função pedagógica de articular e manter uma posição dentro da cidade, dizendo que a cidade não pode ser privatizada.

“Ele (Márcio Lacerda) privatiza a cidade, destrói as relações sociais e tem uma relação perversa com a população mais pobre da cidade, com a população de rua, com as pessoas que fazem ocupações urbanas”.

6) Qual a sua opinião sobre esse rompimento de última hora do PT com o PSB?

R.: Eu imagino que eles vão passar a eleição toda tentando explicar. Como é possível estarem juntos e, faltando cinco dias para a inscrição de chapa, promoverem o rompimento? Além disso, Délio Malheiros também deveria explicar o fato de haver feito campanha afirmando ser de oposição e, de repente, fazer uma articulação que o transforma de oposição em vice. O problema é que a política realizada nesses vinte anos, antiga política da oligarquia, mercantilizada, virou um negócio. Você não faz acordo e recebe apoios por uma questão programática e por convicções ideológicas. Você faz acordos e apoios em função do que isso vai te fazer ganhar e quem vai manter-se no poder. É essa velha política que precisamos eliminar, porque ela é baseada no financiamento privado de campanha, deu origem ao mensalão, à compra de votos, aos “Cachoeiras” da vida. Portanto, é preciso romper com essa política e nós estamos propondo, com a nossa candidatura, o PSOL e o PCB, construir uma nova política baseada na participação das pessoas na definição dos destinos. Por isso, não aceitamos financiamento privado de campanha, pois sabemos que as empresas não doam, elas investem para cobrar no futuro e aí comprometem o futuro da cidade, pois os recursos públicos serão destinados a um pequeno grupo, e não ao conjunto da população.

7) Se as pesquisas confirmarem que Patrus e Márcio Lacerda vão para o segundo turno, você irá apoiar algum desses candidatos?

R.: O que podemos dizer, hoje, é que iremos disputar para irmos ao segundo turno, porque se tem as duas candidaturas da continuidade e a nossa candidatura apresenta uma proposta de transformação da cidade, consideramos, então, ser importante irmos para o segundo turno. Mas, se isso não acontecer, vamos convidar todas as pessoas que participaram da construção do nosso programa, que apoiaram a nossa campanha, para sentarmos coletivamente e definirmos o nosso posicionamento em relação à cidade, porque temos um acordo entre nós e somos contra a atual Administração. Somos “Fora Lacerda”. Portanto, vamos discutir o nosso posicionamento político e, como se trata de uma campanha fruto de uma construção coletiva, teremos que esperar esse momento acontecer, para coletivamente definirmos sobre ele.

8) Vocês têm vários acordos, alianças em vários movimentos com o PSTU. Mas, por que o PSOL não fez aliança com o PSTU esse ano?
R.: Olha, nós tentamos construir uma proposta de conjunto, apresentar uma candidatura comum na cidade. Mas, não conseguimos, infelizmente. Respeitamos os companheiros pelas decisões, mas conseguimos construir com o PCB e temos apoio na nossa campanha pelo PRC. Respeitamos e continuamos juntos na luta por uma cidade melhor para todo mundo.

“Você não faz acordo e recebe apoios por uma questão programática e por convicções ideológicas. Você faz acordos e apoios em função do que isso vai te fazer ganhar e quem vai manter-se no poder”.

9) E como ocorreu essa aliança entre o PSOL e o PCB?

R.: A aliança foi fruto desses debates. Nós estávamos debatendo com várias pessoas a necessidade de construirmos alternativas para Belo Horizonte. Foi um processo de discussão, construído coletivamente a partir de várias reuniões. E, ao pensar se fazíamos ou não a aliança, fizemos várias reuniões abertas, discutindo os problemas da cidade. Então, nós, por exemplo, do PSOL, passamos um período fazendo nossos debates. As pessoas nos convidavam para discutir assuntos que envolvem: cultura, saúde, educação, direitos humanos, moradia na cidade e, a partir desses debates abertos, convidando as pessoas militantes nos diversos movimentos sociais da nossa cidade, inclusive fora de Belo Horizonte, junto com a militância dos outros partidos, nós fomos construindo uma reflexão coletiva que resultou na constituição da “Frente BH Além do Possível”.

10) Qual a diferença entre as suas propostas e as da Vanessa Portugal?

R.: Nós apresentamos o melhor programa de governo. Temos orgulho em dizer isso. Se vocês entrarem no site do TRE, verão minhas propostas. Eu propus o programa mais completo. Nosso programa tem mais de trinta páginas. Os outros partidos apresentaram sínteses, pontos. O nosso programa foi construído durante seis meses, com reflexão coletiva. Nós não apresentamos pontos, propostas soltas. São reflexões sobre os problemas da cidade, sobre cada ponto desses problemas e, nessa reflexão, apresentamos as propostas de solução. Então, na verdade, o nosso programa tem diferenças e semelhanças com os outros, com o do PSTU, por exemplo. Mas, o nosso programa tem uma consistência programática construída coletivamente.

11) De que forma você avalia a cobertura das eleições pela grande mídia?

R.: Aqui há um problema: a eleição virou espetáculo mercantilizado. Portanto, a imprensa sempre trabalha na lógica de que só tem duas candidaturas: Patrus e Márcio Lacerda. Ambos têm muito mais tempo do que nós no programa eleitoral para apresentar as propostas. Ou seja, os tempos entre os candidatos são desiguais. Isso remete ao problema das velhas alianças. Uma candidatura faz vários acordos, não por convicção programática, mas por saber que aquele acordo com dezenove partidos é que vai garantir mais tempo no espaço da televisão. Isso precisa mudar. Por isso, nós defendemos uma reforma política que garanta tempos iguais, financiamento público de campanha. Se todo mundo tiver o mesmo tempo, o mesmo espaço, o mesmo recurso financeiro, nós teremos outra perspectiva de eleição. Um debate concreto sobre os destinos da cidade. Hoje, infelizmente, a nossa forma de organização do processo eleitoral no Brasil reduz a política ao grande marketeiro. Ele transforma a eleição numa questão de negócio e despolitiza a política. E nós queremos politizar a política, fazer com que ela retome a sua função de origem, que é a resolução coletiva dos problemas que nos afligem. Isso é a política. Então, nós precisamos recolocá-la nesse lugar.

“Uma candidatura faz vários acordos, não por convicção programática, mas por saber que aquele acordo de 19 partidos é que vai garantir mais tempo no espaço da televisão”.

12) Quais as suas considerações sobre a Vanessa Portugal não ser convidada para alguns debates da grande mídia, apesar de estar pontos à frente e você ter sido convidada por ter representação partidária?

R.: Nós participamos de toda a discussão nos programas de TV, levando o nosso posicionamento. E queremos todas as pessoas participando dos debates. Quando a imprensa vem com alguns critérios, nós enfatizamos que todo mundo deve participar. Eles só nos convidam porque a lei determina isso. Eu assino todos os manifestos de apoio para que todos participem. Fizemos parte desse movimento de cobrar da imprensa que ela garanta a presença de todo mundo. Agora, isso também faz parte do processo que está visando a reforma política no nosso país. A lei, hoje, garante a participação de quem tem representação na Câmara. Na eleição anterior, a interpretação das emissoras era: quem estava na coligação que tivesse representação na Câmara, participava. Hoje, a interpretação da imprensa baseia-se na pessoa que é ‘cabeça de chapa’, se ela tem representação na Câmara. Então, não é a coligação. É mais grave ainda.

13) Você sabe qual é o perfil do seu eleitorado?

R.: Acreditamos nas pessoas que querem, entendem ser necessário e urgente transformar a política. E aí tem uma diversidade de pessoas com 60, 70, 80 anos, que têm esperança e querem ver a transformação. Há, também, pessoas mais jovens que querem essa mudança, porque percebem que trazemos nessas eleições uma proposta consistente para a cidade. Por isso, foi fundamental para nós esse processo de construção de um programa de governo. Temos uma proposta consistente para a cidade. Pretendemos debater com as pessoas e mostrar para elas que podemos ir além do possível que eles querem nos impor. Então, eu imagino que as pessoas que estão se aproximando da nossa candidatura, são aquelas que querem construir outra política. Querem construir uma política sem mensalão, sem caixa dois, sem “Cachoeiras”, sem compra de votos. Pessoas que acreditam ser necessário e urgente participar da política. É no processo de democratização que fazemos a política recuperar a força de ser política enquanto experiência humana. Então, tem sido essas pessoas que apoiam a nossa candidatura. Pessoas com esperanças e vontades, que acreditam que nada é impossível de ser mudado.

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